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Ensino Domiciliar - um desafio

Quando eu tinha 5 anos eu dizia para minha mãe “Eu não preciso ir para a escola, mamãe, você é professora, me ensina em casa!”. Vamos dizer que em algum momento da minha vida fui super a favor do projeto de Ensino Domiciliar, que entrou em discussão no ano passado e agora, com a história da quarentena, se impôs à maioria das famílias no Brasil e no mundo.

Tenho acompanhado tanto em minha própria casa como em contato com amigos e vendo nas redes sociais, pessoas desesperadas com a situação, outras sendo muito criativas, outras ainda curtindo o momento e outras achando graça nos desafios dos pais e mães enlouquecidos...

Posso mais uma vez falar a partir da minha perspectiva. Tenho um filho de 10 anos e uma enteada de 15. Ela sempre foi bem autônoma em seus estudos, e já há algum tempo procura vídeo-aulas para tirar suas dúvidas. Está tirando de letra a situação. Sua escola envia conteúdo, ela estuda, e tudo segue.

Meu filho normalmente estuda sozinho, faz as lições passadas pelas professoras, em véspera de prova apenas dou aquela reforçada para ele me contar o que vai cair na prova e o que ele está entendendo. Às vezes preciso mandar ele reler algo ou refazer algum exercício, mas ainda no quinto ano não presenciei dificuldades nos estudos dele.

Então apareceu a tal Homeschooling. Assim, de supetão. Assim, sem muito preparo inclusive das escolas. Assim, com a gente tendo que trabalhar em home office (meu marido se apoderou da varanda e eu fiquei com o quarto para realizar meus atendimentos à distância e estudar – eu também na minha pós-graduação à distância!). Assim, com isolamento, sem faxineira, com academia, piscina e áreas de lazer fechadas. Assim...

Passados os primeiros dias de “reforço e lição de casa”, que estavam relativamente tranquilos na rotina normal, veio o desafio dos novos conteúdos. Um sem fim de pdfs enviados pelo aplicativo da escola (ainda meio bagunçado). Algumas sugestões de vídeos de youtube, e um planejamento com conteúdo mas sem quantidade de “hora/aula”... Nessas horas a gente esquece que foi gerente de treinamento e fica só no desespero de ser mãe e dizer “Minha nossa, como vou dar aula, limpar casa, fazer exercício e meditar para não pirar, atender os pacientes, escrever para o blog, estudar para minha pós, lidar com um sem fim de informações e ainda chegar viva ao final disso tudo???”... Isso durou 2 dias.

Depois de perceber que não, meu filho não tinha ainda condições de ler o planejamento e estudar sozinho, ficar brava porque ele parecia estar fazendo corpo mole, com a pior cara do mundo e cheio de preguiça, repetindo que queria voltar para o vídeo-game, depois de “ir ali” e dar uma surtadinha, eu me centrei. Resolvi olhar todos os planos de aula, imprimir todos os exercícios, sentar com papel e caneta, e montar o meu planejamento com ele. Preparei um roteiro, mostrando para ele o que ele teria que fazer no dia seguinte, mostrando que havia mais conteúdo, mas que no dia seguinte ele faria apenas até o item x...

Antes, precisei explicar a ele que o que estamos vivendo não eram férias. Além de tudo que ele ouviu sobre o Coronavirus, sobre estar isolado, sobre os cuidados que precisamos ter para nos proteger e nossos amados dessa doença, precisei relembrar a ele que a casa não funciona sozinha, que todos nós temos nossas responsabilidades e que se a gente se dividir ninguém fica sobrecarregado e todos podemos trabalhar e nos divertir.

Talvez nesse ponto valha uma observação. Eu já tive esse tipo de conversa com meu filho, mas pode ser que você que está lendo agora nunca tenha tido. E tudo bem. Mas talvez seja a hora de parar para ter essa conversa. As crianças, de todas as idades, tem condição de entender que cada um tem uma responsabilidade. Pode-se ensinar a eles, desde que começam a ficar de pé, que ao final de uma brincadeira você mesmo pode guardar seu brinquedinho. Que a banana vem com casca e você mesmo pode descasca-la. Quando são um pouquinho maiores, que podem arrumar suas camas e que a toalha molhada não volta sozinha para o banheiro. Maiorzinhos ainda, lá pelos 7, 8 anos, podem saber que o dinheiro que compra os brinquedos e as comidas, os materiais escolares e até a casa em que moram, são fruto do trabalho que a mamãe e o papai realizam quando estão o dia todo fora de casa. E que, hoje, em quarentena, estão tendo (talvez) que realizar fechado no quarto. Então, que eles precisam respeitar quando mamãe e papai pedem silêncio para fazer uma reunião, ou que não podem fazer dobradura ou ajudar na lição exatamente naquele momento.

É fundamental dar clareza para a criança, especialmente se você não vai estar “a disposição” o tempo todo. Uma boa conversa é a base para uma boa relação.

Voltando ao meu caso, aqui em casa meu filho já tinha suas tarefas pré-definidas – estudar, arrumar o próprio quarto, tirar a louça limpa da máquina, arrumar a mesa, passar aspirador de pó, etc. Ontem, acrescentei mais uma – lavar o banheiro. Estamos sem a ajuda da diarista, sendo assim, todo mundo põe a mão na massa. Claro que não ficou perfeito. Precisei ajudar, mas foi mais leve, todo mundo se divertiu, rolou uma empatia pelo trabalho que dá para manter uma casa limpa e organizada.

Hoje ouvi barulho na sala as 6h30 da manhã... ao me levantar, me deparei com um garoto com a maior cara de sono e todos os planejamentos e cadernos na mesa da sala. Perguntei o que tinha acontecido e ele na maior calma “já está na hora de estudar mamãe”. Dei café da manhã, um beijo, e combinei com ele que depois de meu primeiro atendimento eu voltaria para ver como ele estava indo.

Chegou “a hora do recreio”, e ofereci um lanchinho, e verifiquei como ele estava. Tudo bem. Sem dúvidas. Hora de assistir os vídeos enviados pela professora. Ao final, o youtube sugere um vídeo de humor, falando da professora de cada signo... Disse que esse ele poderia ver “depois da aula”, ou seja, depois de meio dia, horário que teoricamente termina a aula dele em condições usuais, e era assim que faria também em casa.

Sim, ele se dispersa. Sim, tem vontade de fazer qualquer coisa durante “a aula”, mas também tem vontade que eu saiba que ele está se esforçando, e gosta muito de receber um elogio sincero.

Ao final da aula eu o abracei, agradeci por ter respeitado meus atendimentos (como sempre) e por ter se dedicado à sua tarefa. Depois do almoço, estava liberado o vídeo-game. Antes de eu voltar para o meu computador, ele me disse “mamãe, vamos fazer exercícios juntos mais tarde?” – ele sabe que diariamente eu faço exercícios, já fez comigo algumas vezes, e hoje ele mesmo entendeu que não dá para ficar só no sofá.

Não quero que este texto pareça fantasia. Claro que as vezes eu perco a paciência como mãe, e que ele dá aquela forçada de barra como todo filho, mas o que quero passar é que ajuda demais quando a gente fala com o coração aberto qual a realidade para nossos filhos. Precisamos aproveitar esse momento para aprender e ensinar. Aprender que nosso papel não é fácil, mas é plenamente possível. Que é preciso admitir as vezes que não sabemos, que também precisamos de ajuda, que não podemos protege-los e dar suporte o tempo todo, especialmente quando eles estão crescendo. Precisamos compartilhar com eles o que está se passando e confiar que eles estão aprendendo com a gente e com a própria experiência. Precisamos ensinar que as coisas têm um porque, que nossos atos tem consequências, que nada acontece por pura mágica. Que existem responsabilidades e diversão, e que elas se complementam.

O que algumas pessoas comentam, sobre jovens que não estão nem aí com outras pessoas, e até adultos que esperam soluções mágicas para seus problemas, pode nesse momento, ser evitado com a nossa presença autêntica e verdadeira com nossos filhos.

Minha dica, por fim, é conversar abertamente sobre o novo funcionamento da casa nesse período. Pergunte o que ele está pensando sobre tudo isso. Fale sobre o que você precisa fazer como adulto. Sobre o que ele precisa assumir como criança de idade x. Deixar claros os momentos em que você vai estar disponível para ele. Momentos em que ele não vai poder te interromper. Combinar algumas atividades que ele possa fazer sozinho quando você estiver ocupado com seu home office. Quais as tarefas que ele terá que cumprir naquele dia. Que a comida está liberada mas que não dá para comer em excesso, porque vocês estão gastando menos energia. Que não dá para passar o dia no sofá, senão o nosso corpo não aguenta. Que já que não dá para visitar a vovó seria bom telefonar para ela. Que os amigos também estão em casa, então seria legal talvez bater papo com eles por mensagem ou vídeo. Que precisa tomar banho, mesmo que não tenha saído de casa. Que o horário de dormir pode estar mais flexível mas precisa existir, porque a qualidade e quantidade de sono continuam sendo importantes para o crescimento deles. Esteja presente!

Com carinho

Raquel de Moraes Sarmento

Psicóloga

CRP 06/126910


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